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terça-feira, janeiro 04, 2005

Adeus. Até à próxima crise (se sair desta...)

Enredados no pragmatismo quotidiano, dependentes da lógica das relações de força intra-partidárias concelhias e distritais, socio-profissionais, estudantis e outras que tais, os representantes/dirigentes políticos não têm tempo para pensar a médio prazo, nem pensar em como se chegou ao presente. Quanto muito, o médio prazo é a próxima semana, e o passado mal vai além de ontem.

De algum modo a procurar compensar esta carência, os mais reconhecedores de tal insuficiência procuram envolver-se com quem pensa, sabe, reflecte. Mas são poucos. Quer os que reconhecem, quer os que pensam. Os profissionais das máquinas partidárias detestam estes sabichões, vistos como detentores de um poder e uma legitimidade que pode ameaçar o poder e a legitimidade do chefe partidário clássico. Nascem aqui os episódios anedóticos dos ataques aos independentes. Resulta também daqui o predomínio dos aparelhistas, dos profissionais da política, para quem esta é um modo de vida. Literalmente. Enquanto tal, quem questionar estes profissionais está a colocar-lhes uma questão vital. Só pode esperar reacções próprias de quem se sente vitalmente questionado.

Claro que isto tem pouco ou nada a ver com o discurso habitual sobre os partidos como organizações racionais de representação de grupos sociais, apesar de alguns se apresentarem como partido de eleitores. Já passaram à fase, conhecida nas empresas, em que os gestores profissionais se emanciparam do controlo dos accionistas. É deste aparente divórcio entre representantes e representados que se alimenta a desconfiança popular em relação aos políticos, tratados como 'eles'.

Perante a pouca importância dada pelos putativos representantes aos assuntos que afectam a maioria, ou a totalidade, dos representados (eleitores e não-eleitores), é com naturalidade que o eco-sistema social se faz sentir, impondo um choque de realidade, devolvendo com juros os maus-tratos que sofre e a ignorância a que é votado. A história do défice orçamental mais não é do que a expressão de um disfuncionamento (económico), de uma crise de valores (evasão fiscal), de uma impotência do Estado em fazer aplicar as leis que aprova (fileira polícia-justiça), de uma hipocrisia estatal internacional (paraísos fiscais). Neste exemplo, não há aumento de impostos nem corte de despesas que resolvam o problema de fundo - a corrosão da base fiscal do Estado, desde logo, pelos paraísos fiscais, autênticos buracos negros internacionais, que têm a vida facilitada pela hipocrisia dos Estados que lhes permitem a existência. É esta história como podia ser uma outra qualquer relacionada com o quotidiano colectivo de uma colectividade social: desde umas inundações até umas colocações de professores nas escolas.

É tão difícil assim ter uma visão sistémica, complexa, inter-relacionada, das coisas? Por que se há-de ceder à ignorância histérica, ao flash televisivo, à simplicidade momentânea? Há momentos em que o silêncio é de ouro e a palavra de lata. Trata-se de saber se há gestão da agenda e do discurso e se esta é feita pelos media.

O que que quererá dizer este bruáááá na blogosfera contra um certo tipo de jornalismo: simplista, parcelar, parcial, superficial, limitado, reduzido ao soundbyte? Será ouvido por quem importa? E o que fará este quem importa?

Entretanto, não se esqueça que, digam lá o que disserem os políticos, o eco-sistema continua a funcionar. Depois não nos podemos queixar de desastres apresentados como naturais, da corrupção das instituições, da insustentabilidade ambiental da economia, da degradação social da existência humana, do predomínio dos bobos da corte no espaço público.


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