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domingo, janeiro 23, 2005

Pelo choque de inteligências, de vontades

Por entre o choque fiscal (Durão Barroso), o choque tecnológico (José Sócrates) e o choque de gestão (Santana Lopes), com o pedido de um sobressalto por parte do Banco de Portugal (Vítor Constâncio) pelo meio, com a demonstração de abandono socio-económico em que se encontra o País e a sua população, fica-se com a certeza de que é preciso dar um abanão a alguma coisa.

As dúvidas aparecem quanto à coisa que é preciso abanar, com que é preciso chocar.

Um choque fiscal, mesmo na versão de cumprir o prometido, é remédio que provou não funcionar. Baixar o IRC não é o argumento decisivo para fomentar o investimento, nacional ou estrangeiro (IDE), se não se mexer no resto. Quanto ao IDE, aliás, nem se põe a questão de pagar IRC nos primeiros 10 anos, por exemplo. A teoria - e a prática - é esclarecedora quanto aos factores de atracção de IDE. É só ler.

Um choque de gestão ou tecnológico são uma e a mesma coisa. Apenas diferem nas palavras. Para o caso em apreço, o que aparece em segundo lugar soa a repetição, a falta de imaginação. Verdade se diga que o choque tecnológico, por sua vez, mais não é do que outra designação para produtividade. A produtividade, vê-se/ouve-se/lê-se, requer acções integradas, sistémicas, estratégicas, mas os seus ganhos só se fazem sentir a médio prazo.

Seja como for, um choque fiscal, tecnológico ou de gestão - pelo menos, nos termos em que têm sido apresentados - ficam sempre aquém da proposta de Vítor Constâncio.

Ficam-no apenas por um motivo: o governador do Banco de Portugal acompanhou o seu pedido de um sobressalto com a denúncia dos interesses corporativos que abafam, impedem, esconjuram a consideração do interesse colectivo.

Só para recordar: Sem um sobressalto reformista forte, que mude comportamentos e vença interesses corporativos instalados, estaremos condenados a um longo período de crescimento económico medíocre em divergência com o resto da Europa. Na situação a que chegámos, talvez possamos encontrar esperança em que esse sobressalto se concretize num pensamento de Jean Monnet, precisamente um dos pais fundadores da União Europeia, segundo o qual "os homens só agem em estado de necessidade e só reconhecem a necessidade em momentos de crise" (Nota de Apresentação, Boletim Económico, Dezembro de 204, Banco de Portugal, p. 8).

Mais do que racionalidades abstractas e tecnocráticas, os planos obedecem sempre a opções parciais, resultam da expressão de interesses de grupos, de lobbies, de forças organizadas.

Primeiro, há que evidenciar isto.

Depois, há que qualificar.

Mas isto é pedir/esperar muito de quem tem basicamente a cultura, a argumentação, os truques das RGA, não é?

Felizmente que, como a Natureza tem horror ao vazio, já se notam alguns sinais correctivos, pelo menos alguma vontade, e que subjazem ao artigo de Augusto Santos Silva, no Público: O Debate Não É Só Entre Os Partidos.

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