.comment-link {margin-left:.6em;}

sábado, fevereiro 05, 2005

Poder: O político e o fáctico

Vasco Pulido Valente desferiu no Público de sexta-feira um dos mais violentos ataques à classe política em geral de que tenho memória.

A título de exemplo, aqui ficam alguns nacos de prosa, escolhidos com dificuldade dada a fartura textual:

Com Santana Lopes não é possível ter uma conversa seguida sobre coisa nenhuma. Nos melhores momentos, o homem não excede o desenvolvimento mental dos quatro anos.
(...)
A inocência pública continua a presumir que os políticos compreendem, em geral, os problemas da sociedade portuguesa e que lá num cantinho remoto do seu cérebro sabem como os resolver. Nada justifica este optimismo. Pelo contrário.
(...)
Os políticos têm a cabeça infinitamente vazia, admitindo, por muito favor, que têm cabeça.

É capaz de ter razão.

Como ex-político - foi secretário de Estado adjunto de Sá Carneiro e deputado do PSD - conhece bem a classe política actual. Como historiador, no ICS, conhece bem a classe política dos séculos em que tem interesses confessos, XIX e XX.

Há uns anos, Mendo Castro Henriques escrevia no Euronotícias, de 20 de Julho de 2001, que também em Pulido Valente se vê a linhagem do pessimismo histórico, a apreensão dos democratas sinceros que vêem a liberdade extinguir-se e, olhando em redor, duvidam profundamente que haja gente e meios para a defender contra os passos avassaladores do poder, tomem estes a forma de um bailinho da Madeira, de uma chula de Matosinhos, ou de um hip-hop populista da Figueira da Foz. Nestas matérias Pulido não perdoa e investe, liberalmente, contra todos os que revelam inépcias, desconchavos, desacertos, contradições, raciocínios enviesado, falaciosos, ou simplesmente estupidez, muita estupidez. Pulido não perdoa.

Pode ser que seja assim.

Mas interrogo-me se não é excessivo este massacre analítico e mediático da classe política; se não se está a atacar a essência do sistema político democrático, apesar de todos os defeitos do sistema de selecção e representação política.

Não porque o sistema não o mereça (talvez), não porque a classe política não deva estar sob escrutínio permanente (que deve), não porque a selecção e representação política não mereça reparos e exija conserto (que merece e exige), mas porque o massacre é desproporcionado em relação a outros poderes que, assim, beneficiam com a menor exposição público-mediática, em alguns casos inexistente de todo.

Trata-se dos chamados poderes fácticos, não sujeitos a controlo público, político, democrático, nos termos em que são os designados políticos.

Entre os mais institucionalizados, clássicos e com protagonistas/representantes conhecidos estão a Igreja, as Forças Armadas, os Grupos Económicos e Financeiros, as Multinacionais.

Depois existem todos os grupos informais, cujos membros se relacionam, protegem e potenciam, através de redes de cumplicidades, influência e projecção - dos gays aos sócios da Casa Regional da Terrinha (solidariedade emigrante), dos licenciados em Tal-e-Tal do ano X aos admiradores da Marilyn.

No oposto, na ilegalidade e criminalidade, situam-se outros poderes, que interferem, moldam, para não dizer estruturam, o quotidiano social, de que os mais óbvios são os traficantes de pessoas, de armas, da designada droga.

A sociedade, a política, a Res Publica, ganharia claramente se estes poderes tivessem a mesma exposição mediática e atenção de analistas/comentadores que a classe política.

Ao fim e ao cabo, os políticos são apenas um grupo de agentes sociais, que não nasce do acaso. Vale a pena repetir que há um curso de mestrado - deverão existir mais, com certeza, mas fica aqui este registo - em que este assunto é discutido directamente. Na cadeira de Recrutamento Político, do mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, da FCSH interroga-se: Como e por que razão é que as pessoas começam a desempenhar funções e cargos políticos? Quem é seleccionado e por quem? Quais as variáveis contextuais que têm maior impacto no recrutamento político? Em que medida é que os processos e padrões de recrutamento afectam os estilos de liderança e as escolhas políticas?

Dizer mal, o piorio, desfazer, rebentar com a classe política corresponde a questionar o que lhe subjaz. Por outras palavras: os portugueses. E a impedir que se foque com a mesma intensidade outros agentes tão ou mais importantes/estruturantes/determinantes.

Por exemplo, a tradução mediática do fenómeno droga anda em torno da imagem do arrumador de carros, de uma ou outra apreensão, de uns roubos por esticão, uma ou outra morte por overdose, e pouco mais. Mas - e o resto? A maior parte dos drogados nem sequer tem visibilidade pública, ou porque são legais (estimulantes, ansiolíticos,...) ou porque são consumidores de marijuana. Onde está o dinheiro da droga?

Por exemplo, as casas de alterne são um tema que, desmultiplicado, pode dar para averiguar as causas da prostituição, tipificação da clientela, turismo sexual, beneficiários do investimento feito com o dinheiro gerado por esta actividade, duplicidade moral da sociedade, realidade familiar, ...

Por exemplo, o tráfico de armas também deve dar muitas histórias, pelo pouco que se vai lendo. Enfim, a indústria da guerra em geral. Até porque muitos (todos?) desenvolvimentos tecnológicos nascem da investigação militar. O caso mais óbvio é o da internet.

Será o ataque ao político uma espécie de jogo nacional?, que corresponde a uma qualquer forma de compensação?

Que fazer?

É possível melhorar a democracia?

Ou esta não tem remédio, o que existe é mesmo o melhor que se pode arranjar e esperar, pelo que há que começar a pensar em alternativas, na pior das hipóteses, ou em habituarmo-nos a esta - como direi? - triste, apagada e vil tristeza democrática, na melhor das hipóteses?

Será que se estão a concentrar muitas, demasiadas, todas as esperanças no agente político, quando ele - pobre coitado -, na realidade, vale pouco? Quando ele está entalado, condicionado, limitado, por um conjunto de contra-poderes ou de outros poderes, que em alguns (muitos? demasiados?) casos podem mais do que ele?

Não se diz que a política é a arte do possível? Diz-se. Mas não se diz o que a limita.

Será que se está reduzido à escolha entre decepção/desilusão e cinismo/criticismo?

Comments: Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Link to ClockLink.com