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sexta-feira, junho 10, 2005

O primarismo do anti-político

Esta aparente fronda anti-políticos, patente no misto de crítica e voyeurismo sobre os rendimentos dos cargos políticos, também pode ser lida como um sinal da escassez de recursos para todos.

Quando havia dinheiro mais ou menos a rodos - ia-se exportando, ia-se trabalhando, ia-se beneficiando de uns trocos na repartição interna dos fundos comunitários -, o ambiente estava mais ou menos apaziguado. Ia-se discutindo os casamentos entre homossexuais, direitos dos animais, igualdade entre géneros e outras questões de civilização similares e aparentadas.

Com a subida do desemprego, subsequente à atrofia progressiva do aparelho produtivo interno, e a ausência de perspectivas positivas para o comum dos cidadãos, passado o bálsamo que foi a vitória do Benfica no campeonato, dominam as preocupações banais, quotidianas, da sobrevivência, própria e do agregado.

Esta procupação social, ambiente, em pano de fundo é contrastada com o bem-estar relativo - e absoluto - dos titulares de cargos políticos, que supostamente deveriam resolver os problemas da comunidade que lideram ou, pelo menos, supostamente representam.

Aqui não se trata já de, admitamo-lo, inveja, mas está aquém, no plano elementar, básico, primário, determinante, da disputa dos recursos, estilo "porque é que os políticos estão estar a acumular rendimentos, mordomias, honrarias e boa vida se não resolvem os meus problemas?".

O argumento pior, limite, é "porque é tu tens se eu não tenho?". Fica-se a um passo da realidade efectiva da selva, com a disputa violenta de recursos escassos, onde o mais fraco perece.

E agora?

Encaminharnos-emos para a solução fácil, demagógica, redutora, de reduzir benefícios aos ditos políticos? Estes enveredarão pela solução dos problemas? E será que esta solução depende deles? Ou andamos todos ao engano, depositando esperanças e ilusõs na capacidade de delivery da classe política, quando esta de facto não o pode fazer, limitada por outras forças e centros de racionalização da vida colectiva? A ser positiva a resposta a esta última interrogação, a solução também não estará no desenvolvimento de tendências cesaristas, bonapartistas, apesar de se estarem a reunir condições favoráveis a estas.

Entretanto, vamo-nos entretendo, com os desvalidos a desejarem a situação dos validos e a procurarem quem esteja ainda pior para se reconfortarem na sua escassez.

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