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sábado, setembro 24, 2005

Escândalos e espantos

- Já viste este escândalo?, perguntava o Um ao Outro.
- Já, pá. E vê lá que também li sobre este, ouvi sobre aquele e suspeito de mais aqueloutro, contrapunha o Outro.
- Pois é, esta bosta está uma choldra - resmungava, meio desiludido, meio resignado, o Um.
O Um e o Outro comentavam os mais recentes acontecimentos da Parvónia, enquanto petiscavam no bar do aeroporto - dominado por uma televisão que emitia um programa refinado, misto de futebol, telenovela, concurso e reality show -, onde tinham ido esperar o Aquele, amigo que vinha da Estranja.
- Mas como é possível? Estas coisas acontecem todos os anos, não há ninguém que escape, já o meu avô me contava coisas... Caraças!, praguejava o Outro.
- Vais ver que é maldição, sugeria o Um.
- Se calhar, admitia o Outro, que acrescentava: Eh pá, parece que cada gajo que vai dentro é substituído por dois ou três.
- Pois, isso no caso dos que vão dentro..., ressalvava o Um.
Estavam nisto quando chegou o avião com Aquele. Pagaram e foram esperá-lo.
Chegado Aquele, trocaram grandes abraços e vários mata-saudades entre malas e embrulhos, no meio da confusão dos reencontros vários.
Algum tempo depois, mais calmos, atira o Aquele: Tenho uma história fabulosa para vos contar.
- Ah sim?, interrogaram o Um e o Outro. Qual é?
- Então não querem lá ver que um tipo sacou umas massas assim, enganou meio mundo assado, montou uma mansão impressionante, tem uns carros que até fazem perder a respiração, umas garinas a estibordo, uns ministros na algibeira, ... - e lá continuou as histórias que trouxe da Estranja, misto de realidade, patranha e imaginação.
Um e Outro ouviam e viam que as suas histórias não destoavam muito das do Aquele.

Moral da história (sugestão para uma arquelogia do presente): e que tal se se procurasse dar ordem à desordem noticiosa sobre casos que a sociedade entende serem escandalosos? O que lhes é comum? Que causas têm? Que consequências têm?
Sabe-se que é mais trabalhoso, mas é necessário.
Sob pena de se passar a vida a abrir a boca de espanto quando se lê o jornal, ouve a rádio ou vê televisão, a recorrer ao desabafo, ao insulto, a cair na desmoralização (São todos iguais! Isto sempre foi assim e assim continuará!, e pérolas congéneres).
Nesta situação, de boca aberta, por norma, ou entra mosca ou sai asneira.

Fechar a boca significa passar do espanto para a compreensão.
Compreender que o poder local não é o local do poder.
Distinguir figuras públicas do público das figuras privadas.
Passar do show-off para o off-show.

Passar do fenómeno espectacular (simples) para o sistema complexo (exigente)... ou então beber mais uma caneca para celebrar a produtividade do Nuno Gomes!

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